Grande notícia pra quem gosta de tomar umas!

Neste feriado, em meio ao meu plantão, tropecei no artigo ‘Why Alcohol Is Good For You’, no site da revista Wired. Achei o raciocínio e as conclusões do cara que escreveu tão interessantes que eu decidi traduzir o texto para meus poucos leitores, sabendo que vários de vocês apreciam uma boa brejinha. Quem quiser ler o original, em inglês, pode clicar AQUI e arrumar uma desculpa para (quase) toda a cachaça consumida nesta vida.

Porque o álcool é bom para você

Por Jonah Lehrer

Essa é uma daquelas anomalias médicas que ninguém consegue explicar de verdade: estudos de caso têm mostrado, de maneira consistente, que pessoas que não consomem nenhum tipo de bebida alcoólica tendem a morrer mais cedo do que as pessoas que bebem. Num primeiro momento, faz muito pouco sentido. Por que ingerir uma toxina psicoativa que aumenta o risco de câncer, demência e doenças do fígado faria crescer nossa expectativa de vida?

Bom, a anomalia acaba de ficar ainda mais anômala. Um novo estudo, publicado na revista Alcoholism: Clinical and Experimental Research (Alcoolismo: Pesquisa Clínica e Experimental), seguiu 1824 participantes com idades entre 55 e 65 anos. Mais uma vez, os pesquisadores descobriram que a abstinência do consumo de álcool amplia o risco de morte, mesmo quando são excluídos da pesquisa alcoólatras que pararam de beber (a ideia é que ex-bebedores podem distorcer os dados, uma vez que eles já transformaram seus órgãos em conservas). Enquanto 69% dos abstêmios morreram durante os 20 anos em que o estudo foi realizado, apenas 41% dos que bebiam moderadamente faleceram (bebedores moderados também morreram 23% menos do que quem bebe pouco). Mas eis o ponto realmente estranho nos dados: bebedores contumazes também vivem mais do que os abstêmios (apenas 61% dos beberrões morreram durante o estudo). Em outras palavras consumir quantidades perturbadoramente altas de álcool parece ser melhor do que simplesmente não beber nada.

Nós vivemos em uma era reducionista, em que cada efeito longitudinal é explicado e dispensado no nível mais fundamental possível. Então, esse estudo, sem dúvida, vai levar pesquisadores a tentarem provar os benefícios do vinho tinto, com seus oxidantes e o resveratrol. Também vai fazer com que pessoas explorem os benefícios cardiovasculares do álcool, uma vez que vários dos benefícios adicionais do consumo de bebidas (como níveis elevados do colesterol HDL) parecem se extender às pessoas que bebem cerveja e destilados.

Todas essas são hipóteses importantes, o tipo de especulações que reconfortam o coração deste bebedor (não sou nenhum alcoólatra, mas certamente curto minha cervejinha à noite). Mesmo assim, minha preocupação é que, na pressa de reduzir, de traduzir o inesperado efeito longitudinal para acrônimos de bioquimica, nós podemos ignorar a real importância do estudo.

Vamos pensar, por um momento, sobre a história cultural da bebida. A primeira razão pela qual as pessoas consomem álcool é para relaxar, tirando vantagem das suas proprietades ansiolíticas. Esse é o famoso beber após o trabalho – depois de oito horas de labuta, há algo profundamente reconfortante em uma dose de álcool, que aquieta o cérebro regulando nossos neurotransmissores (mas não se empolgue: enquanto o consumo moderado de álcool pode reduzir sintomas do stress, quando o nível de álcool no sangue passa de 0,1% – a maior parte dos estados norte-americanos considera 0,08% o limite legal para dirigir – é liberada uma grande quantidade de hormônios do stress, ou seja, mesmo que você sinta que está relaxado enquanto bêbado, seu corpo é convencido de que está em um estado de perigo mortal). E desse modo as aflições do dia parecem desaparecer – nós recebemos uma folga temporária das reclamações recorrentes de nossa própria consciência. Uma vez que o stress crônico é muito, muito ruim para nós, encontrar uma substância que consiga interromper efetivamente o ciclo do stress pode ter benefícios médicos.

Mas beber não é apenas desestressar. Na verdade, as tradições culturais que cercam o álcool tendem a enfatizar uma segunda função, talvez ainda mais importante: a socialização. Desde que as pessoas começaram a fermentar coisas, elas vêm transformando os excessos de produção em desculpas para grandes festas. Dos festivais de colheita na Babilônia às festas em honra ao deus Baco na Grécia Antiga, o álcool sempre esteve entranhado em nossas reuniões. Isso acontece por razões óbvias: o álcool é um delicioso lubrificante social, uma droga líquida que é particularmente boa para apagar nossas ansiedades interpessoais. E isso pode ajudar a explicar porque, de acordo com o novo estudo, quem bebe moderadamente tem mais amigos e apoio desses amigos com melhor qualidade do que abstêmios. Eles também se casam mais facilmente.

O que isso tem a ver com a longevidade? Nos últimos anos, sociólogos e epidemiologistas começaram a estudar os efeitos a longo prazo da solidão. Que, na verdade, são realmente perigosos. Nós somos primatas sociais, e quando somos separados da rede social, temos mais probabilidade de morrer de praticamente tudo (mas especialmente doenças cardíacas). Neste ponto, o elo entre a abstinência e o isolamento social é meramente hipotético. Mas, dada a longa história das bebedeiras em grupo – é o que fazemos quando nos juntamos – parece provável que beber com moderação facilita para que possamos desenvolver e cultivar relacionamentos. E são esses relacionamentos que nos ajudam a nos manter vivos.

É claro, os relacionamentos têm sua própria química, um idioma de dopamina, ocitocina, vasopressina, etc. Mas eu acho que, na pressa de decifrar as moléculas do nosso corpo, estamos ignorando a lição mais essencial, que é que alguns dos benefícios mais valiosos à saúde não vêm de compostos que podem ser engarrafados ou condensados em uma cápsula de gel. Em vez disso, eles vêm de outras pessoas, daquelas conversar deliciosas que temos enquanto tomamos uma taça ou três de vinho.

Aviso do Cirurgião Geral: É claro que essas correlações longitudinais não diminuem as consequências negativas e frequentemente devastadoras do álcool e do alcoolismo. Não podemos nos esquecer que o álcool pode ser uma substância viciante e que isso, em muitos contextos, beber provoca violência e vandalismo, e não socialização de maneira educada. Também é essencial ressaltar que todos os efeitos benéficos do álcool citados acima (como desestressar e socializar) também podem ser atingidos de graça, por meditação ou simplesmente sendo um bom amigo.

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