São Paulo vista por baixo

Desde que eu resolvi criar este novo blog (e eu decidi muito antes de conseguir largar a preguiça de lado e realmente criar o blog), eu venho pensando em fazer um texto sobre o metrô de São Paulo. Pra quem não tem carro, como eu, o metrô aqui é um companheiro diário, um local onde eu passo todo santo dia. E nunca falta assunto, porque você vê gente de todo jeito, de todo tipo, e assiste a minutos da vida delas, vê coisas muito engraçadas ou simplesmente bizarras. É uma fonte quase inesgotável de histórias.

Pra quem não conhece, os vagões do metrô de São Paulo têm umas telas que ficam passando um conteúdo bem meia-boca, composto de propaganda, um noticiário bem raso e não muito bem escrito, e fica nisso. No começo, quando instalaram essa tal de TV Metrô, eles preenchiam o espaço colocando dicas de como os passageiros deveriam proceder uma vez dentro das estações e trens. Algumas eram engraçadíssimas.

Já coloquei no twitter a minha preferida, mas é sempre divertido relembrar: “deixe seu cartão (bilhete único) parado sobre o validador até a liberação da passagem”. A frase era veículada DENTRO do vagão, ou seja, depois que o passageiro chegou à catraca, colocou o cartão sobre o validador, a passagem foi devidamente validada, o passageiro já tinha descido as escadas, ido à plataforma e entrado no trem. Gênios, esses caras do metrô. Só faltou lembrarem que a catraca tinha que ser rodada pro passageiro entrar.

Outra frase genial era ‘é proibido o consumo de bebida alcoólica dentro do metrô ou viajar embriagado’. Quem já andou no metrô em qualquer sexta ou sábado à noite sabe que o vagão vira uma estufa, de tanta gente breaca suando o álcool lá dentro. Uma das coisas mais engraçadas que eu vi numa dessas viagens, voltando do trabalho, aconteceu durante um plantão de Carnaval.

Na plataforma da Barra Funda, senti um bafo monstruoso de álcool. Quando vi, era uma mulher completamente bêbada, com a filha (que só queria cavar um buraco no chão e se enterrar) e o namorado dela. A primeira coisa que ela fez quando o trem chegou foi perguntar como chegava em uma estação…. de trem. Um cara indicou o caminho e lá ia ela, saindo do trem. A filha deu um berro e puxou a mãe de volta pra dentro, mandou ela sentar e ficar quieta, que ela sabia o caminho.

O trem saiu e a mulher berrando dentro do vagão. “Daiane, por que você briga comigo? Você tem vergonha de mim!! Buááá” E fingiu que chorava que nem uma criança. A menina só mandava a mãe calar a boca e o namorado ainda brigava com ela, falava “respeita a tua mãe, Daiane!” Isso durou algumas estações, até que o trem parou na República.

Foi nessa hora que entrou um casal de rapazes. Sem saber de nada, eles se sentaram do lado da véia. Pra quê? A véia deu a mão pra um dos caras apertar, quando ele apertou ela berrou “aperta que nem homem, porra!” E o cara se matando de rir, junto com o namorado dele. A menina ainda tentou fazer a mãe baixar a voz de novo, mas não teve jeito. A última frase que eu ouvi, quando desci do trem na Sé, foi a véia falando “Que foi, Daiane? Eles gostam da mesma coisa que você!” Aí nem ela aguentou e começou a rir.

Depois eu conto de outros doidos que eu já vi, xaropices que testemunhei e uma revelação surpreendente: um ídolo dos anos 80, dado como morto, ainda vive em SP e pode ser visto no Metrô.

Nota de utilidade pública

O Metrô de São Paulo vem sendo utilizado como propaganda eleitoral há vários mandatos, pelos diversos tucanos que governaram o estado. Por favor, não se enganem. O sistema do metrô, apesar de ter um funcionamento relativamente eficiente, é ridiculamente pequeno pro que a cidade necessita pra dar condições mínimas de deslocamento pra população. As expansões são feitas a passo de tartaruga e a preços exorbitantes.

Apenas pra efeito de comparação. São Paulo e a Cidade do México começaram a construir seus respectivos metrôs no fim da década de 1960. O decreto de criação em SP data de 66, o do México, de 65. Hoje, o metrô paulistano tem 5 linhas (sendo que a Lilás ainda liga o nada ao lugar nenhum desde que foi concluída em 2002), com 59 estações e apenas 69 quilômetros de linhas. O metrô da Cidade do México dá um banho: 11 linhas, 175 estações e 201 km de linhas.

Pra não ser injusto, reconheço que o relevo da Cidade do México, que fica numa planície dentro da cratera de um antigo vulcão extinto, é muito mais favorável pra esse tipo de construção do que o de São Paulo. O relevo paulistano, aliás, é um verdadeiro pesadelo, a cidade foi construída num local que não teria condições de receber uma metrópole desse porte mas, mesmo assim, a diferença ainda é absurda entre um sistema e outro. Não falta dinheiro aqui, falta vergonha na cara de quem precisa dar transporte pro povão.

São Paulo vem sendo governado pelo PSDB desde a eleição de Mário Covas, em 1994. Desde então, o que foi feito pelo Metrô? Pouco, pro que eles falam nas propagandas. Além da linha Lilás, que começou a ser construída pela CPTM e foi transferida pro Metrô em 2001, inaugurada no ano seguinte e, desde então, não recebeu novas estações, temos duas estações da Linha Amarela (executadas por consórcio de empresas particulares, responsável pela maior tragédia da história do Metrô, a cratera de 2007), três estações da Linha Azul entregues em 98, seis da Linha Verde e NENHUMA da Linha Vermelha, a que mais recebe passageiros. A Vermelha não tem novas estações desde 1988 (VINTE E DOIS ANOS!!!). Resumo da ópera: 16 anos de governo e 17 estações entregues à população.

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Uma resposta to “São Paulo vista por baixo”

  1. É… mas infelizmente muitos de nós terão que enfrentar mais 4 anos no mínimo de (pseudo)governo do PSDB. O que mais me irrita nesse partido é que além da atitude chapa-branca enjoativa, falam que fazem, fingem ser competentes e são absolutamente inúteis. Os avanços que fizeram nesses 16 anos chegam a ser piada. O Estado mais rico do Brasil está a mercê de uma gente inútil que finge que faz, mas não faz. A culpa é nossa mesmo, porque o governo somos nós. Mas eu vou assistir isso a uma distância segura; “Espero estar bem longe quando o rodo passar! Espero estar bem longe quando tudo isso passar…”

    Abraços

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