Lição para jornalistas e quem os lê

Quem vem à minha casa pela primeira vez sempre toma um susto quando vê a minha estante de livros. Tenho mais de 400 exemplares aqui, de todos os tipos e tamanhos. Minha tara é por ficção, por histórias bem escritas e bem amarradas. Só do Stephen King, são uns 25 livros, a grande maioria no original. Um dos maiores escritores que os EUA já produziram, na minha modesta opinião. O último dele que eu li foi Under The Dome, uma baita história, que me prendeu durante bons meses.

Depois dele, o primeiro livro que eu abri foi ‘The Girl With The Dragon Tattoo’ (que aqui no Brasil, ganhou o título de ‘Os Homens que não amavam as Mulheres’), primeira parte da trilogia Millenium, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Não parei mais, e já cheguei ao terceiro livro, “The Girl Who Kicked The Hornet’s Nest’ (no Brasil, ‘A Rainha do Castelo de Ar’). Larsson morreu de infarto em 2004, sem ver seus livros publicados, e no ano passado foi o segundo autor em número de vendas no mundo inteiro.

Esta semana, enquanto lia, tropecei num diálogo que deveria ser reproduzido em todo e qualquer livro sobre jornalismo. Nessa época de eleições presidenciais, em que a mídia brasileira é pedra e vidraça e participa ativamtente do processo (influenciando, talvez menos do que seus donos gostariam, no resultado), as frases da jornalista Erika Berger para um de seus repórteres merecem destaque. Para não entregar a história para quem não leu o livro, digo apenas que ela descobre que o repórter vai publicar uma matéria com informações incorretas, e dá uma verdadeira lição. Segue o trecho

Original (pelo menos na versão em inglês que estou lendo)

Reporter: “I understand.”

Berger: “Do you? Good. Then I can sum up everything I said in one sentence. Your job description is to question and scrutinize critically – never to repeat claims uncritically, no matter how high placed the sources in the bureaucracy. Don’t ever forget that. You’re a damn good writer, but that talent is completely worthless if you forget your job description.” (…) “Think like a reporter. Investigate who’s spreading the story, why it’s being spread, and ask yourself whose interest it might serve.”

Tradução

Repórter: “Eu entendo.”

Berger: “Entende? Ótimo. Então eu posso resumir tudo o que eu disse em apenas uma frase. Seu trabalho é questionar e examinar criticamente – nunca repetir alegações sem usar a crítica, não importa o cargo que as fontes ocupem na burocracia. Nunca se esqueça disso. Você é um ótimo escritor, mas esse talento não vale nada se você esquece qual é o seu trabalho.” (…) “Pense como um repórter. Investigue quem está espalhando a história, por que ela está sendo espalhada, e pergunte-se aos interesses de quem ela pode servir.”

Em época de personagens obscuros sustentando escândalos mal-explicados e que, sem investigação adequada, podem influenciar nos destinos de um país inteiro, essas palavras deveriam ser sempre lembradas.

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