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Eleições: cuidado, perigo de explosão!

Posted in O futuro do país do futuro on 15/10/2010 by biones

Essas eleições ainda vão me matar. E a muitos outros inocentes também. E a culpa vai ser minha. Antes de mandarem a polícia aqui, me explico. Tenho acompanhado muito de perto todo esse processo, lendo muito do que sai a respeito na imprensa, nos chamados ‘blogs sujos’ (sites que remam contra a maré da grande imprensa, como os de caras com quem tenho a sorte de conviver ou ter convivido quase que diariamente no ambiente de trabalho, como Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luís Carlos Azenha) e tudo o que eu leio tá enchendo a minha cabeça a ponto de explodir. E esse é o grande perigo. Uma jaca como a minha, se explodir, pode levar o quarteirão inteiro junto.

Pra começar, adianto que tenho posições muito definidas. Sou anti-tucano até morrer. Acho que o PSDB foi um grande male para o Brasil e que o fato de que o partido vai cumprir 20 anos de governo estadual em São Paulo é uma prova que esse estado perdeu muito da sua grandeza, graças, em boa parte, a esses próprios governantes. Sou lulista, acho que o Lula fez um governo histórico e conseguiu, em oito anos, mudar o país. Se isso torna a minha opinião menos digna de ser lida, pode fechar seu navegador agora. Se tiver opiniões contrárias, manifeste-se nos comentários abaixo e debatemos numa boa.

Tem alguns pontos em discussão nessa corrida eleitoral que me deixam besta. O primeiro deles é o lero lero a respeito de liberdade de expressão, de imprensa. Muito tentou se pintar o Lula como um cara autoritário (em uma entrevista do FHC para um grande jornal de SP, o adjetivo usado pelo repórter pra definir o comportamento dele foi ‘caudilhesco’), que não respeita opiniões contrárias, etc e tal. Desafio os leitores a encontrarem um exemplo de jornalista que tenha sido demitido a pedido dele.

Nesses oito anos, ele foi chamado de ‘bêbado’, ‘vagabundo’, entre outras preciosidades e eu gostaria muito de saber se alguém conhece um jornalista que tenha sido demitido depois de um telefonema do Palácio do Planalto. Já o candidato que diz ser ‘do bem’… Há alguns meses, dois grandes jornalistas da TV Cultura foram afastados de seus cargos após tentarem emplacar uma matéria sobre preços de pedágios no principal telejornal da emissora. Isso sem contar diversos outros casos, que podemos abordar depois mas, vejam bem, os pedágios são assunto de interesse público.

Está mais caro viajar de São Paulo a Bauru (percurso de 345km, R$ 45 na ida e R$ 45 na volta) do que de Belo Horizonte ao Rio (percurso de 434km, mais ou menos R$ 20 por trecho), graças às frequentes concessões das estradas paulistas. Uma fábrica de dinheiro, digna de um ‘pedagiômetro’ como os gastos com a carga tributária no país são de um ‘impostômetro. Acabei de olhar o site pedagiometro.com.br e lá está: quase R$ 4,2 bilhões só este ano foram coletados no estado que mais tem praça de pedágios no país. Isso não vale uma matéria?

Outros exemplos do apreço à liberdade de expressão. O Estadão declarou apoio ao Serra em um editorial de domingo. Até aí, ótimo, fica claro ao eleitor como ele deve ler o jornal, sabendo que ali se apoia o candidato. Usando da liberdade de imprensa que existe e é respeitada plenamente no país, colocou sua opinião da maneira mais clara possível. E duas semanas depois, demitiu uma colunista inteligente e conceituada, a psicanalista Maria Rita Kehl, porque ela escreveu um texto sobre os votos da população mais pobre, artigo brilhante, por sinal.

A Folha, em editorial na primeira página, no mesmo domingo, chamou Lula de autoritário e falou que ficará de olho em Dilma, caso ela seja eleita (não esclareceram se ficarão de olho em Serra caso ele ganhe, mas isso não vem ao caso… Ou vem?). Declarou-se apartidária, crítica e mais uma vez, defendeu a liberdade de expressão. Na semana seguinte, um blog que fazia sátira à Folha foi tirado do ar por meio de uma medida judicial, em que o jornal alega ‘uso ilegal da marca’. Fico imaginando o escândalo que fariam caso o PT entrasse na Justiça contra a Veja pelo uso da estrela, símbolo do partido, em dezenas de capas.

Hoje, veio mais uma pérola da Justiça. O Ministério Público Eleitoral, por meio da vice-procuradora-geral eleitoral, dra. Sandra Cureau, deu parecer favorável a uma representação da campanha do Serra contra o Jornal da Record, no qual eu trabalho, por ‘campanha’ a favor de Dilma Rousseff. Segundo dra. Cureau, houve ‘engenhosa manipulação’ em uma matéria que falava sobre os votos recebidos por Dilma e Serra no primeiro turno.

Qual seria a manipulação? A matéria mostrava como, dentro de São Paulo, cada candidato liderou em uma região: Serra, em Pinheiros, Jardins e similares, Dilma em Engenheiro Marsilac e outros bairros mais carentes da Zona Sul. Os números usados são do TSE, e correspondem ao mapeamento feito dos votos. Eu pergunto: o que há de manipulação em contar um fato?

Da cobertura da emissora líder de audiência, dra. Cureau não fala nada. Se vocês entrarem neste post aqui do blog do Azenha, vão ver que, no primeiro dia de campanha para o 2º turno, o Jornal Nacional e o Jornal da Record cobriram o mesmo evento: a visita de José Serra à Avenida Jacu-Pêssego, uma das obras mais mostradas no programa eleitoral do candidato. A Record mostrou que a visita da comitiva tucana acabou cedo por causa de protestos de moradores da região. Na concorrência, o texto que o repórter usa é “o candidato foi ABRAÇADO por eleitores”. Onde está a manipulação, dona Cureau? Em quem mostra o fato ou em quem o esconde?

Ainda tenho muito mais o que falar sobre essas e outras baixarias que são jogadas no ventilador, com o propósito único de retirar da eleição o seu verdadeiro propósito, que é o de comparar propostas na hora de decidir o futuro do país. Mas o que me incomoda, de verdade, é ver gente inteligente, instruída, que deveria saber filtrar as coisas que lê, repetindo besteiras lidas em correntes toscas de e-mails e usando esse ‘material’ para decidir seu voto.

Pra quem quer se informar um pouco melhor sobre tudo isso, sugiro os links abaixo.

A direitona mostra organização para chegar ao poder: “Nossa marca é crise” moral (post do blog do Azenha, leitura imperdível)

Desde 2004, PSDB paulista gastou 250 milhões com a mídia (entrevista feita pelo blog do Azenha sobre contratos entre o governo interminável do PSDB em SP e a mídia)

Dois pesos… (artigo da psicanalista Maria Rita Kehl que resultou em sua demissão do Estadão, recomendo, o texto é brilhante)

No próximo post, coloco aqui mais links desses, mas sempre vale frequentar o Conversa Afiada, site do Paulo Henrique Amorim e o Escrevinhador, do Rodrigo Vianna.

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Lição para jornalistas e quem os lê

Posted in O futuro do país do futuro on 24/09/2010 by biones

Quem vem à minha casa pela primeira vez sempre toma um susto quando vê a minha estante de livros. Tenho mais de 400 exemplares aqui, de todos os tipos e tamanhos. Minha tara é por ficção, por histórias bem escritas e bem amarradas. Só do Stephen King, são uns 25 livros, a grande maioria no original. Um dos maiores escritores que os EUA já produziram, na minha modesta opinião. O último dele que eu li foi Under The Dome, uma baita história, que me prendeu durante bons meses.

Depois dele, o primeiro livro que eu abri foi ‘The Girl With The Dragon Tattoo’ (que aqui no Brasil, ganhou o título de ‘Os Homens que não amavam as Mulheres’), primeira parte da trilogia Millenium, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Não parei mais, e já cheguei ao terceiro livro, “The Girl Who Kicked The Hornet’s Nest’ (no Brasil, ‘A Rainha do Castelo de Ar’). Larsson morreu de infarto em 2004, sem ver seus livros publicados, e no ano passado foi o segundo autor em número de vendas no mundo inteiro.

Esta semana, enquanto lia, tropecei num diálogo que deveria ser reproduzido em todo e qualquer livro sobre jornalismo. Nessa época de eleições presidenciais, em que a mídia brasileira é pedra e vidraça e participa ativamtente do processo (influenciando, talvez menos do que seus donos gostariam, no resultado), as frases da jornalista Erika Berger para um de seus repórteres merecem destaque. Para não entregar a história para quem não leu o livro, digo apenas que ela descobre que o repórter vai publicar uma matéria com informações incorretas, e dá uma verdadeira lição. Segue o trecho

Original (pelo menos na versão em inglês que estou lendo)

Reporter: “I understand.”

Berger: “Do you? Good. Then I can sum up everything I said in one sentence. Your job description is to question and scrutinize critically – never to repeat claims uncritically, no matter how high placed the sources in the bureaucracy. Don’t ever forget that. You’re a damn good writer, but that talent is completely worthless if you forget your job description.” (…) “Think like a reporter. Investigate who’s spreading the story, why it’s being spread, and ask yourself whose interest it might serve.”

Tradução

Repórter: “Eu entendo.”

Berger: “Entende? Ótimo. Então eu posso resumir tudo o que eu disse em apenas uma frase. Seu trabalho é questionar e examinar criticamente – nunca repetir alegações sem usar a crítica, não importa o cargo que as fontes ocupem na burocracia. Nunca se esqueça disso. Você é um ótimo escritor, mas esse talento não vale nada se você esquece qual é o seu trabalho.” (…) “Pense como um repórter. Investigue quem está espalhando a história, por que ela está sendo espalhada, e pergunte-se aos interesses de quem ela pode servir.”

Em época de personagens obscuros sustentando escândalos mal-explicados e que, sem investigação adequada, podem influenciar nos destinos de um país inteiro, essas palavras deveriam ser sempre lembradas.

São Paulo vista por baixo

Posted in Besteiras genéricas on 15/09/2010 by biones

Desde que eu resolvi criar este novo blog (e eu decidi muito antes de conseguir largar a preguiça de lado e realmente criar o blog), eu venho pensando em fazer um texto sobre o metrô de São Paulo. Pra quem não tem carro, como eu, o metrô aqui é um companheiro diário, um local onde eu passo todo santo dia. E nunca falta assunto, porque você vê gente de todo jeito, de todo tipo, e assiste a minutos da vida delas, vê coisas muito engraçadas ou simplesmente bizarras. É uma fonte quase inesgotável de histórias.

Pra quem não conhece, os vagões do metrô de São Paulo têm umas telas que ficam passando um conteúdo bem meia-boca, composto de propaganda, um noticiário bem raso e não muito bem escrito, e fica nisso. No começo, quando instalaram essa tal de TV Metrô, eles preenchiam o espaço colocando dicas de como os passageiros deveriam proceder uma vez dentro das estações e trens. Algumas eram engraçadíssimas.

Já coloquei no twitter a minha preferida, mas é sempre divertido relembrar: “deixe seu cartão (bilhete único) parado sobre o validador até a liberação da passagem”. A frase era veículada DENTRO do vagão, ou seja, depois que o passageiro chegou à catraca, colocou o cartão sobre o validador, a passagem foi devidamente validada, o passageiro já tinha descido as escadas, ido à plataforma e entrado no trem. Gênios, esses caras do metrô. Só faltou lembrarem que a catraca tinha que ser rodada pro passageiro entrar.

Outra frase genial era ‘é proibido o consumo de bebida alcoólica dentro do metrô ou viajar embriagado’. Quem já andou no metrô em qualquer sexta ou sábado à noite sabe que o vagão vira uma estufa, de tanta gente breaca suando o álcool lá dentro. Uma das coisas mais engraçadas que eu vi numa dessas viagens, voltando do trabalho, aconteceu durante um plantão de Carnaval.

Na plataforma da Barra Funda, senti um bafo monstruoso de álcool. Quando vi, era uma mulher completamente bêbada, com a filha (que só queria cavar um buraco no chão e se enterrar) e o namorado dela. A primeira coisa que ela fez quando o trem chegou foi perguntar como chegava em uma estação…. de trem. Um cara indicou o caminho e lá ia ela, saindo do trem. A filha deu um berro e puxou a mãe de volta pra dentro, mandou ela sentar e ficar quieta, que ela sabia o caminho.

O trem saiu e a mulher berrando dentro do vagão. “Daiane, por que você briga comigo? Você tem vergonha de mim!! Buááá” E fingiu que chorava que nem uma criança. A menina só mandava a mãe calar a boca e o namorado ainda brigava com ela, falava “respeita a tua mãe, Daiane!” Isso durou algumas estações, até que o trem parou na República.

Foi nessa hora que entrou um casal de rapazes. Sem saber de nada, eles se sentaram do lado da véia. Pra quê? A véia deu a mão pra um dos caras apertar, quando ele apertou ela berrou “aperta que nem homem, porra!” E o cara se matando de rir, junto com o namorado dele. A menina ainda tentou fazer a mãe baixar a voz de novo, mas não teve jeito. A última frase que eu ouvi, quando desci do trem na Sé, foi a véia falando “Que foi, Daiane? Eles gostam da mesma coisa que você!” Aí nem ela aguentou e começou a rir.

Depois eu conto de outros doidos que eu já vi, xaropices que testemunhei e uma revelação surpreendente: um ídolo dos anos 80, dado como morto, ainda vive em SP e pode ser visto no Metrô.

Nota de utilidade pública

O Metrô de São Paulo vem sendo utilizado como propaganda eleitoral há vários mandatos, pelos diversos tucanos que governaram o estado. Por favor, não se enganem. O sistema do metrô, apesar de ter um funcionamento relativamente eficiente, é ridiculamente pequeno pro que a cidade necessita pra dar condições mínimas de deslocamento pra população. As expansões são feitas a passo de tartaruga e a preços exorbitantes.

Apenas pra efeito de comparação. São Paulo e a Cidade do México começaram a construir seus respectivos metrôs no fim da década de 1960. O decreto de criação em SP data de 66, o do México, de 65. Hoje, o metrô paulistano tem 5 linhas (sendo que a Lilás ainda liga o nada ao lugar nenhum desde que foi concluída em 2002), com 59 estações e apenas 69 quilômetros de linhas. O metrô da Cidade do México dá um banho: 11 linhas, 175 estações e 201 km de linhas.

Pra não ser injusto, reconheço que o relevo da Cidade do México, que fica numa planície dentro da cratera de um antigo vulcão extinto, é muito mais favorável pra esse tipo de construção do que o de São Paulo. O relevo paulistano, aliás, é um verdadeiro pesadelo, a cidade foi construída num local que não teria condições de receber uma metrópole desse porte mas, mesmo assim, a diferença ainda é absurda entre um sistema e outro. Não falta dinheiro aqui, falta vergonha na cara de quem precisa dar transporte pro povão.

São Paulo vem sendo governado pelo PSDB desde a eleição de Mário Covas, em 1994. Desde então, o que foi feito pelo Metrô? Pouco, pro que eles falam nas propagandas. Além da linha Lilás, que começou a ser construída pela CPTM e foi transferida pro Metrô em 2001, inaugurada no ano seguinte e, desde então, não recebeu novas estações, temos duas estações da Linha Amarela (executadas por consórcio de empresas particulares, responsável pela maior tragédia da história do Metrô, a cratera de 2007), três estações da Linha Azul entregues em 98, seis da Linha Verde e NENHUMA da Linha Vermelha, a que mais recebe passageiros. A Vermelha não tem novas estações desde 1988 (VINTE E DOIS ANOS!!!). Resumo da ópera: 16 anos de governo e 17 estações entregues à população.

Nada como o tempo…

Posted in Besteiras genéricas on 14/09/2010 by biones

A vantagem de você chegar a uma certa idade (mais especificamente, quando o primeiro número da sua idade passa do 2 pro 3) é que você ganha alguma perspectiva na vida. Tem um monte de anos pra rodar ainda, mas os que você já passou mostram que você já tem uma certa bagagem, digamos, uma envergadura moral. E com o passar do tempo, você percebe que estava certo em um monte de coisas e errado em um monte maior ainda.

Vejam o meu caso. Gosto de um monte de coisas que as pessoas não fazem ideia do que sejam, não gostam ou acham que é pagar mico gostar. Olhem esse exemplo: em meados dos anos 1990, quando estava no colegial (sei que hoje é ensino médio, mas nunca vou deixar de chamar de colegial, desculpem) lá em São José dos Campos, meu padrasto resolveu que ia instalar, no PC de casa, uma tal de internet.

Já tinha lido a respeito nos jornais e achava interessantíssimo saber mais sobre ela. Então, quando foi devidamente instalada, cliquei no programa que acionava o modem, ouvi pela primeira vez aquele barulho inconfundível da internet discada, entrei no tal de Universo Online (quase ninguém lembra que esse era o nome original do Uol) e criei o meu primeiro e-mail. Contei na escola e pronto: era um nerd, um xarope, não tinha nada a ver o que eu tava fazendo. O simples fato de eu ter este texto aqui neste espaço diz tudo, certo?

Outro exemplo: ainda no colégio, um amigo meu me indicou um livro super difícil de achar, mas que era um clássico em outros países. O livro se chamava ‘O Senhor dos Anéis’, de JRR Tolkien, e realmente, só fui conseguir encontrar cópias, em inglês, na Livraria Cultura, durante a faculdade. Pra ler o terceiro livro, tive de encomendar e esperar mais de um mês pela entrega.

Isso foi um pouco antes antes de um cineasta chamado Peter Jackson levar centenas de pessoas pra Nova Zelândia pra filmar, de uma só vez, os três filmes que compõe a série, uma das mais premiadas do cinema. Quando veio o lançamento do primeiro filme, passou a ser uma moleza achar os livros. Até comprei uma edição completa, em português, mas tenho que admitir que a original, que é um senhor trampo pra ler, foi mais divertida de conseguir.

Ainda vou dedicar um post só pros games, um desses interesses que eu sempre tive, desde pequeno, e que agora estão com tudo, por causa das novas gerações de consoles. Hoje, a inspiração tá no fim.

Grande notícia pra quem gosta de tomar umas!

Posted in Besteiras genéricas on 08/09/2010 by biones

Neste feriado, em meio ao meu plantão, tropecei no artigo ‘Why Alcohol Is Good For You’, no site da revista Wired. Achei o raciocínio e as conclusões do cara que escreveu tão interessantes que eu decidi traduzir o texto para meus poucos leitores, sabendo que vários de vocês apreciam uma boa brejinha. Quem quiser ler o original, em inglês, pode clicar AQUI e arrumar uma desculpa para (quase) toda a cachaça consumida nesta vida.

Porque o álcool é bom para você

Por Jonah Lehrer

Essa é uma daquelas anomalias médicas que ninguém consegue explicar de verdade: estudos de caso têm mostrado, de maneira consistente, que pessoas que não consomem nenhum tipo de bebida alcoólica tendem a morrer mais cedo do que as pessoas que bebem. Num primeiro momento, faz muito pouco sentido. Por que ingerir uma toxina psicoativa que aumenta o risco de câncer, demência e doenças do fígado faria crescer nossa expectativa de vida?

Bom, a anomalia acaba de ficar ainda mais anômala. Um novo estudo, publicado na revista Alcoholism: Clinical and Experimental Research (Alcoolismo: Pesquisa Clínica e Experimental), seguiu 1824 participantes com idades entre 55 e 65 anos. Mais uma vez, os pesquisadores descobriram que a abstinência do consumo de álcool amplia o risco de morte, mesmo quando são excluídos da pesquisa alcoólatras que pararam de beber (a ideia é que ex-bebedores podem distorcer os dados, uma vez que eles já transformaram seus órgãos em conservas). Enquanto 69% dos abstêmios morreram durante os 20 anos em que o estudo foi realizado, apenas 41% dos que bebiam moderadamente faleceram (bebedores moderados também morreram 23% menos do que quem bebe pouco). Mas eis o ponto realmente estranho nos dados: bebedores contumazes também vivem mais do que os abstêmios (apenas 61% dos beberrões morreram durante o estudo). Em outras palavras consumir quantidades perturbadoramente altas de álcool parece ser melhor do que simplesmente não beber nada.

Nós vivemos em uma era reducionista, em que cada efeito longitudinal é explicado e dispensado no nível mais fundamental possível. Então, esse estudo, sem dúvida, vai levar pesquisadores a tentarem provar os benefícios do vinho tinto, com seus oxidantes e o resveratrol. Também vai fazer com que pessoas explorem os benefícios cardiovasculares do álcool, uma vez que vários dos benefícios adicionais do consumo de bebidas (como níveis elevados do colesterol HDL) parecem se extender às pessoas que bebem cerveja e destilados.

Todas essas são hipóteses importantes, o tipo de especulações que reconfortam o coração deste bebedor (não sou nenhum alcoólatra, mas certamente curto minha cervejinha à noite). Mesmo assim, minha preocupação é que, na pressa de reduzir, de traduzir o inesperado efeito longitudinal para acrônimos de bioquimica, nós podemos ignorar a real importância do estudo.

Vamos pensar, por um momento, sobre a história cultural da bebida. A primeira razão pela qual as pessoas consomem álcool é para relaxar, tirando vantagem das suas proprietades ansiolíticas. Esse é o famoso beber após o trabalho – depois de oito horas de labuta, há algo profundamente reconfortante em uma dose de álcool, que aquieta o cérebro regulando nossos neurotransmissores (mas não se empolgue: enquanto o consumo moderado de álcool pode reduzir sintomas do stress, quando o nível de álcool no sangue passa de 0,1% – a maior parte dos estados norte-americanos considera 0,08% o limite legal para dirigir – é liberada uma grande quantidade de hormônios do stress, ou seja, mesmo que você sinta que está relaxado enquanto bêbado, seu corpo é convencido de que está em um estado de perigo mortal). E desse modo as aflições do dia parecem desaparecer – nós recebemos uma folga temporária das reclamações recorrentes de nossa própria consciência. Uma vez que o stress crônico é muito, muito ruim para nós, encontrar uma substância que consiga interromper efetivamente o ciclo do stress pode ter benefícios médicos.

Mas beber não é apenas desestressar. Na verdade, as tradições culturais que cercam o álcool tendem a enfatizar uma segunda função, talvez ainda mais importante: a socialização. Desde que as pessoas começaram a fermentar coisas, elas vêm transformando os excessos de produção em desculpas para grandes festas. Dos festivais de colheita na Babilônia às festas em honra ao deus Baco na Grécia Antiga, o álcool sempre esteve entranhado em nossas reuniões. Isso acontece por razões óbvias: o álcool é um delicioso lubrificante social, uma droga líquida que é particularmente boa para apagar nossas ansiedades interpessoais. E isso pode ajudar a explicar porque, de acordo com o novo estudo, quem bebe moderadamente tem mais amigos e apoio desses amigos com melhor qualidade do que abstêmios. Eles também se casam mais facilmente.

O que isso tem a ver com a longevidade? Nos últimos anos, sociólogos e epidemiologistas começaram a estudar os efeitos a longo prazo da solidão. Que, na verdade, são realmente perigosos. Nós somos primatas sociais, e quando somos separados da rede social, temos mais probabilidade de morrer de praticamente tudo (mas especialmente doenças cardíacas). Neste ponto, o elo entre a abstinência e o isolamento social é meramente hipotético. Mas, dada a longa história das bebedeiras em grupo – é o que fazemos quando nos juntamos – parece provável que beber com moderação facilita para que possamos desenvolver e cultivar relacionamentos. E são esses relacionamentos que nos ajudam a nos manter vivos.

É claro, os relacionamentos têm sua própria química, um idioma de dopamina, ocitocina, vasopressina, etc. Mas eu acho que, na pressa de decifrar as moléculas do nosso corpo, estamos ignorando a lição mais essencial, que é que alguns dos benefícios mais valiosos à saúde não vêm de compostos que podem ser engarrafados ou condensados em uma cápsula de gel. Em vez disso, eles vêm de outras pessoas, daquelas conversar deliciosas que temos enquanto tomamos uma taça ou três de vinho.

Aviso do Cirurgião Geral: É claro que essas correlações longitudinais não diminuem as consequências negativas e frequentemente devastadoras do álcool e do alcoolismo. Não podemos nos esquecer que o álcool pode ser uma substância viciante e que isso, em muitos contextos, beber provoca violência e vandalismo, e não socialização de maneira educada. Também é essencial ressaltar que todos os efeitos benéficos do álcool citados acima (como desestressar e socializar) também podem ser atingidos de graça, por meditação ou simplesmente sendo um bom amigo.

Obrigado, Corinthians!

Posted in Corinthians on 02/09/2010 by biones

Há uns minutos, o dia 1º de setembro de 2010, centenário do Sport Club Corinthians Paulista virou dia 2. Consegui botar um pouco a cabeça no lugar e finalmente vou conseguir escrever o texto que eu queria para homenagear o meu Coringão. Em primeiro lugar, obrigado, Corinthians, muito obrigado. Por me fazer gostar de futebol, por me mostrar que a raça e a dedicação valem muito, por me fazer rir, chorar, comemorar e até mesmo lamentar. Porque é nas derrotas, mais do que nas vitórias, que se molda um caráter.

Vou começar isso aqui confessando uma coisa: eu não nasci corintiano. Ou melhor, nasci, mas demorei um tempo pra me convencer de que era. Meu pai, assim como a minha avó e o pai dela, é santista (meu bisavô até foi vice-presidente do Santos, nos anos 20, época em que os astros do time eram Araken Patusca e Feitiço). Mas ele nunca foi muito de assistir jogos, torcer, nunca fez questão de me colocar na frente da TV pra ver o time dele jogar. Por isso, acompanhei muito pouco futebol nos meus primeiros anos.

Foi só quando eu voltei de um ano morando no Canadá, aos cinco anos, em 84, e fui morar em um prédio em São José dos Campos, que eu comecei a ter mais contato com o esporte. Pra dar uma ideia de como eu não sabia nada, eu tinha uma bola e da primeira vez que eu fui jogar com a molecada do prédio, já paguei mico. Alguém chutou a bola pra fora e outro gritou ‘nossa!’ e eu fiquei falando ‘poxa, mas a bola é minha…’

Nessa época, como todo menino, só queria saber de agradar meu pai, e inventei de falar que torcia pro Santos, pra ver se o véio ficava feliz, mas nunca fiquei vendo jogo e torcendo de verdade pro time. Na Copa de 86, comecei a ver um pouco mais atentamente os jogos. E foi vendo a Copa União, no ano seguinte, que um time alvinegro, bom a ponto de fazer 10 a 1 em um tal de Tiradentes, começou a chamar a minha atenção.

Nesse meio tempo, meu primo começou a torcer pro Corinthians e logo trouxe pra Fiel o meu irmão. Os dois são pouco mais de dois anos mais novos do que eu e gostavam mais de ver futebol, só ficavam me falando do time. O Corinthians se sagrou campeão paulista de 1988, com um gol de carrinho de um garoto chamado Viola. Dois anos depois, mais um gol de carrinho, desta vez do Tupãzinho na final do Brasileiro contra o SPFW, me arrebatou de vez. Desde então, essa força chamada Corinthians tomou conta de mim, de um jeito que eu nunca poderia imaginar.

Comecei a acompanhar mais de perto e, a cada jogo, a cada vitória e cada derrota, gostava mais e mais do clube do povo. Em 93, de tanto encher o saco, eu e meu irmão convencemos o véio a nos levar ao Pacaembu. Nunca vou esquecer aquele sábado à tarde: vitória por 2 a 0 sobre o Inter de Porto Alegre, gols de Tupãzinho e Leto. No ano seguinte, o primeiro clássico: 2 a 2 contra os bambis no Morumbi, com gols de Tupãzinho e do incrível Gralak, numa cobrança de falta tão forte que deu pra ouvir o barulho do pé dele batendo na bola lá do alto da arquibancada.

Vendo e sofrendo com o Corinthians, tive muitas alegrias. Me lembro de ver a final do Brasileiro de 98 na antiga redação da Gazeta Esportiva, no prédio da Folha, a do Brasileiro de 99 em pleno Morumbi, cercado de grandes amigos, a do Mundial de 2000 na casa do Alê, um desses grandes amigos, a do Paulistão 95 no apartamento em que eu morava em São José (jogo que terminou com meu irmão abraçado comigo, ensopando meu ombro de lágrimas), a da Copa do Brasil 95 também com meu irmão.

Todos esses momentos foram inesquecíveis, como outros jogos, que não significaram títulos, mas marcaram muito. A vitória sobre o Santos no último segundo na semifinal do Paulista de 2001, gol do Ricardinho. No ano anterior, estava no Pacaembu para um jogo contra o Rosário Central, da Argentina, pela Libertadores e vi o espetacular Dida defender três pênaltis pra nos classificar pras semifinais, depois de uma vitória por 3 a 2 no tempo normal.

Também vi, outras vezes, o Corinthians perder. Perder sem lutar, uma desgraça pra um corintiano que se preze. Perder sem conseguir lutar, que dói um pouco menos. Perder lutando muito, que é uma coisa que valorizamos muito. E me lembro de duas vezes que o Corinthians me fez chorar de tristeza: depois da derrota injustificável pro Palmeiras na semifinal da Libertadores de 2000 (quase quebrei a mão dando um murro na parede quando o Marcelinho perdeu o pênalti) e depois do jogo contra o Grêmio em 2007, que decretou o rebaixamento pra Série B. Confesso, chorei dentro do banheiro da redação, porque estava de plantão nesse dia.

Mas o que mais me emociona e sempre me emocionou quando o assunto é Corinthians é a Fiel. É uma coisa linda ver o Pacaembu lotado, todo mundo cantando sem parar, empurrando o time. Quem estava lá na noite que o Timão derrotou o Cianorte, do Paraná, pela Copa do Brasil de 2005, por 5 a 1, precisando de cada um dos quatro gols de diferença, depois de levar um dos gols mais impedidos da história do futebol, nunca vai esquecer.

Por tudo isso, muito obrigado, Corinthians. Muito obrigado por essa vida de luta, de vitórias e de derrotas, de craques e cabeças de bagre, de momentos lindos da torcida e de alguns nem tanto. Obrigado, feliz centenário e que a sua história continue sendo sempre uma das mais bonitas do futebol.

A melhor banda de rock que você nunca ouviu

Posted in Bom e velho Rock n' Roll on 14/07/2010 by biones

Aproveitando que ontem foi o Dia Mundial do Rock, que a Espanha se tornou a oitava seleção campeã da Copa do Mundo no domingo e que eu precisava largar a mão de ser preguiçoso e voltar a escrever um pouco pra mim, resolvi botar esse meu novo espaço pra funcionar. E como primeiro ato, apresento ao meu seleto (e pequeno) público, a melhor banda de rock n’ roll que vocês nunca ouviram.

A banda se chama M Clan e começou em 1992, em Múrcia (Espanha) e é uma das bandas mais bem-sucedidas do país. Infelizmente, como no Brasil, além de música nacional, só se ouve rock feito nos Estados Unidos ou na Inglaterra ou adjacências, quase ninguém conhece por aqui. O que é uma pena, porque os caras são bons de verdade.

Quem me apresentou a banda foi o meu amigo Paulo de Tarso (o blog dele é o Projeto Toronto), um maluco que nasceu com uma alma de nômade. Em 2001, ele morou na Espanha e conheceu o M Clan no auge, na época do acústico que eles fizeram pra MTV local. Aliás, um discaço, cheio de músicas boas. Um belo dia, depois que ele voltou, me mostrou esse acústico, mas a música que me fez gostar de verdade da banda foi ‘Cierto Sabor Amargo’, um baita rock, com direito a um belo riff de guitarra e piano quase de rockabilly.

Aliás, desafio qualquer fã de rock a ouvir ‘Cierto Sabor Amargo’, ‘Perdido En La Ciudad’, ‘Donde El Rio Hierve’, ‘Ataque Al Corazón’, ‘Las Calles Están Ardiendo’, ‘Hasta Quando’ ou ‘Donde Está La Revolución’ e não gostar. O vocal do chileno Carlos Tarque é tudo o que um cantor de rock tem que ter: forte, com aquele rasgado de quem fuma um cigarro atrás do outro enquanto toca num bar, além de dois guitarristas (Ricardo Ruipérez e Carlos Raya, sem contar o monstro Santiago Campillo, que saiu da banda em 2001) e um tecladista (Alejandro Climent) mais do que competentes. Enfim, uma belíssima banda.

As covers que eles fazem são um capítulo à parte. Tem as versões corajosas de clássicos como ‘Paint It Black’, dos Stones, traduzida brilhantemente pro espanhol, assim como ‘Lola’, dos Kinks e ‘Maggie Mae’, do Rod Stewart. Podem ouvir ‘Todo Negro’ e ‘Maggie Despierta’ sem medo nenhum (aliás, a versão deles de ‘Maggie’, na minha opinião, é melhor que a original). E eles mandam muito bem também com ‘Superstitious’, do Stevie Wonder, ‘I Was Made For Loving You’, do Kiss (num arranjo brilhante, completamente diferente do original) e até ‘We Can Work It Out’, dos Beatles.

Os discos lançados pelo M Clan são: Un buen momento (1995), Coliseum (1997), Usar y tirar (1999), Sin enchufe (2001) – este é o acústico da MTV que eu menciono acima, Defectos personales (2002), Sopa fría (2004), Retrovisión (2006) e Memorias de un espantapájaros (2008). O site oficial da banda, infelizmente, está fora do ar, mas por um bom motivo: eles estão trabalhando no nono disco deles. Enfim, eles são muito bons e eu recomendo a todo mundo que curte el buen y viejo rock n’ roll.