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São Paulo vista por baixo

Posted in Besteiras genéricas on 15/09/2010 by biones

Desde que eu resolvi criar este novo blog (e eu decidi muito antes de conseguir largar a preguiça de lado e realmente criar o blog), eu venho pensando em fazer um texto sobre o metrô de São Paulo. Pra quem não tem carro, como eu, o metrô aqui é um companheiro diário, um local onde eu passo todo santo dia. E nunca falta assunto, porque você vê gente de todo jeito, de todo tipo, e assiste a minutos da vida delas, vê coisas muito engraçadas ou simplesmente bizarras. É uma fonte quase inesgotável de histórias.

Pra quem não conhece, os vagões do metrô de São Paulo têm umas telas que ficam passando um conteúdo bem meia-boca, composto de propaganda, um noticiário bem raso e não muito bem escrito, e fica nisso. No começo, quando instalaram essa tal de TV Metrô, eles preenchiam o espaço colocando dicas de como os passageiros deveriam proceder uma vez dentro das estações e trens. Algumas eram engraçadíssimas.

Já coloquei no twitter a minha preferida, mas é sempre divertido relembrar: “deixe seu cartão (bilhete único) parado sobre o validador até a liberação da passagem”. A frase era veículada DENTRO do vagão, ou seja, depois que o passageiro chegou à catraca, colocou o cartão sobre o validador, a passagem foi devidamente validada, o passageiro já tinha descido as escadas, ido à plataforma e entrado no trem. Gênios, esses caras do metrô. Só faltou lembrarem que a catraca tinha que ser rodada pro passageiro entrar.

Outra frase genial era ‘é proibido o consumo de bebida alcoólica dentro do metrô ou viajar embriagado’. Quem já andou no metrô em qualquer sexta ou sábado à noite sabe que o vagão vira uma estufa, de tanta gente breaca suando o álcool lá dentro. Uma das coisas mais engraçadas que eu vi numa dessas viagens, voltando do trabalho, aconteceu durante um plantão de Carnaval.

Na plataforma da Barra Funda, senti um bafo monstruoso de álcool. Quando vi, era uma mulher completamente bêbada, com a filha (que só queria cavar um buraco no chão e se enterrar) e o namorado dela. A primeira coisa que ela fez quando o trem chegou foi perguntar como chegava em uma estação…. de trem. Um cara indicou o caminho e lá ia ela, saindo do trem. A filha deu um berro e puxou a mãe de volta pra dentro, mandou ela sentar e ficar quieta, que ela sabia o caminho.

O trem saiu e a mulher berrando dentro do vagão. “Daiane, por que você briga comigo? Você tem vergonha de mim!! Buááá” E fingiu que chorava que nem uma criança. A menina só mandava a mãe calar a boca e o namorado ainda brigava com ela, falava “respeita a tua mãe, Daiane!” Isso durou algumas estações, até que o trem parou na República.

Foi nessa hora que entrou um casal de rapazes. Sem saber de nada, eles se sentaram do lado da véia. Pra quê? A véia deu a mão pra um dos caras apertar, quando ele apertou ela berrou “aperta que nem homem, porra!” E o cara se matando de rir, junto com o namorado dele. A menina ainda tentou fazer a mãe baixar a voz de novo, mas não teve jeito. A última frase que eu ouvi, quando desci do trem na Sé, foi a véia falando “Que foi, Daiane? Eles gostam da mesma coisa que você!” Aí nem ela aguentou e começou a rir.

Depois eu conto de outros doidos que eu já vi, xaropices que testemunhei e uma revelação surpreendente: um ídolo dos anos 80, dado como morto, ainda vive em SP e pode ser visto no Metrô.

Nota de utilidade pública

O Metrô de São Paulo vem sendo utilizado como propaganda eleitoral há vários mandatos, pelos diversos tucanos que governaram o estado. Por favor, não se enganem. O sistema do metrô, apesar de ter um funcionamento relativamente eficiente, é ridiculamente pequeno pro que a cidade necessita pra dar condições mínimas de deslocamento pra população. As expansões são feitas a passo de tartaruga e a preços exorbitantes.

Apenas pra efeito de comparação. São Paulo e a Cidade do México começaram a construir seus respectivos metrôs no fim da década de 1960. O decreto de criação em SP data de 66, o do México, de 65. Hoje, o metrô paulistano tem 5 linhas (sendo que a Lilás ainda liga o nada ao lugar nenhum desde que foi concluída em 2002), com 59 estações e apenas 69 quilômetros de linhas. O metrô da Cidade do México dá um banho: 11 linhas, 175 estações e 201 km de linhas.

Pra não ser injusto, reconheço que o relevo da Cidade do México, que fica numa planície dentro da cratera de um antigo vulcão extinto, é muito mais favorável pra esse tipo de construção do que o de São Paulo. O relevo paulistano, aliás, é um verdadeiro pesadelo, a cidade foi construída num local que não teria condições de receber uma metrópole desse porte mas, mesmo assim, a diferença ainda é absurda entre um sistema e outro. Não falta dinheiro aqui, falta vergonha na cara de quem precisa dar transporte pro povão.

São Paulo vem sendo governado pelo PSDB desde a eleição de Mário Covas, em 1994. Desde então, o que foi feito pelo Metrô? Pouco, pro que eles falam nas propagandas. Além da linha Lilás, que começou a ser construída pela CPTM e foi transferida pro Metrô em 2001, inaugurada no ano seguinte e, desde então, não recebeu novas estações, temos duas estações da Linha Amarela (executadas por consórcio de empresas particulares, responsável pela maior tragédia da história do Metrô, a cratera de 2007), três estações da Linha Azul entregues em 98, seis da Linha Verde e NENHUMA da Linha Vermelha, a que mais recebe passageiros. A Vermelha não tem novas estações desde 1988 (VINTE E DOIS ANOS!!!). Resumo da ópera: 16 anos de governo e 17 estações entregues à população.

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Nada como o tempo…

Posted in Besteiras genéricas on 14/09/2010 by biones

A vantagem de você chegar a uma certa idade (mais especificamente, quando o primeiro número da sua idade passa do 2 pro 3) é que você ganha alguma perspectiva na vida. Tem um monte de anos pra rodar ainda, mas os que você já passou mostram que você já tem uma certa bagagem, digamos, uma envergadura moral. E com o passar do tempo, você percebe que estava certo em um monte de coisas e errado em um monte maior ainda.

Vejam o meu caso. Gosto de um monte de coisas que as pessoas não fazem ideia do que sejam, não gostam ou acham que é pagar mico gostar. Olhem esse exemplo: em meados dos anos 1990, quando estava no colegial (sei que hoje é ensino médio, mas nunca vou deixar de chamar de colegial, desculpem) lá em São José dos Campos, meu padrasto resolveu que ia instalar, no PC de casa, uma tal de internet.

Já tinha lido a respeito nos jornais e achava interessantíssimo saber mais sobre ela. Então, quando foi devidamente instalada, cliquei no programa que acionava o modem, ouvi pela primeira vez aquele barulho inconfundível da internet discada, entrei no tal de Universo Online (quase ninguém lembra que esse era o nome original do Uol) e criei o meu primeiro e-mail. Contei na escola e pronto: era um nerd, um xarope, não tinha nada a ver o que eu tava fazendo. O simples fato de eu ter este texto aqui neste espaço diz tudo, certo?

Outro exemplo: ainda no colégio, um amigo meu me indicou um livro super difícil de achar, mas que era um clássico em outros países. O livro se chamava ‘O Senhor dos Anéis’, de JRR Tolkien, e realmente, só fui conseguir encontrar cópias, em inglês, na Livraria Cultura, durante a faculdade. Pra ler o terceiro livro, tive de encomendar e esperar mais de um mês pela entrega.

Isso foi um pouco antes antes de um cineasta chamado Peter Jackson levar centenas de pessoas pra Nova Zelândia pra filmar, de uma só vez, os três filmes que compõe a série, uma das mais premiadas do cinema. Quando veio o lançamento do primeiro filme, passou a ser uma moleza achar os livros. Até comprei uma edição completa, em português, mas tenho que admitir que a original, que é um senhor trampo pra ler, foi mais divertida de conseguir.

Ainda vou dedicar um post só pros games, um desses interesses que eu sempre tive, desde pequeno, e que agora estão com tudo, por causa das novas gerações de consoles. Hoje, a inspiração tá no fim.

Grande notícia pra quem gosta de tomar umas!

Posted in Besteiras genéricas on 08/09/2010 by biones

Neste feriado, em meio ao meu plantão, tropecei no artigo ‘Why Alcohol Is Good For You’, no site da revista Wired. Achei o raciocínio e as conclusões do cara que escreveu tão interessantes que eu decidi traduzir o texto para meus poucos leitores, sabendo que vários de vocês apreciam uma boa brejinha. Quem quiser ler o original, em inglês, pode clicar AQUI e arrumar uma desculpa para (quase) toda a cachaça consumida nesta vida.

Porque o álcool é bom para você

Por Jonah Lehrer

Essa é uma daquelas anomalias médicas que ninguém consegue explicar de verdade: estudos de caso têm mostrado, de maneira consistente, que pessoas que não consomem nenhum tipo de bebida alcoólica tendem a morrer mais cedo do que as pessoas que bebem. Num primeiro momento, faz muito pouco sentido. Por que ingerir uma toxina psicoativa que aumenta o risco de câncer, demência e doenças do fígado faria crescer nossa expectativa de vida?

Bom, a anomalia acaba de ficar ainda mais anômala. Um novo estudo, publicado na revista Alcoholism: Clinical and Experimental Research (Alcoolismo: Pesquisa Clínica e Experimental), seguiu 1824 participantes com idades entre 55 e 65 anos. Mais uma vez, os pesquisadores descobriram que a abstinência do consumo de álcool amplia o risco de morte, mesmo quando são excluídos da pesquisa alcoólatras que pararam de beber (a ideia é que ex-bebedores podem distorcer os dados, uma vez que eles já transformaram seus órgãos em conservas). Enquanto 69% dos abstêmios morreram durante os 20 anos em que o estudo foi realizado, apenas 41% dos que bebiam moderadamente faleceram (bebedores moderados também morreram 23% menos do que quem bebe pouco). Mas eis o ponto realmente estranho nos dados: bebedores contumazes também vivem mais do que os abstêmios (apenas 61% dos beberrões morreram durante o estudo). Em outras palavras consumir quantidades perturbadoramente altas de álcool parece ser melhor do que simplesmente não beber nada.

Nós vivemos em uma era reducionista, em que cada efeito longitudinal é explicado e dispensado no nível mais fundamental possível. Então, esse estudo, sem dúvida, vai levar pesquisadores a tentarem provar os benefícios do vinho tinto, com seus oxidantes e o resveratrol. Também vai fazer com que pessoas explorem os benefícios cardiovasculares do álcool, uma vez que vários dos benefícios adicionais do consumo de bebidas (como níveis elevados do colesterol HDL) parecem se extender às pessoas que bebem cerveja e destilados.

Todas essas são hipóteses importantes, o tipo de especulações que reconfortam o coração deste bebedor (não sou nenhum alcoólatra, mas certamente curto minha cervejinha à noite). Mesmo assim, minha preocupação é que, na pressa de reduzir, de traduzir o inesperado efeito longitudinal para acrônimos de bioquimica, nós podemos ignorar a real importância do estudo.

Vamos pensar, por um momento, sobre a história cultural da bebida. A primeira razão pela qual as pessoas consomem álcool é para relaxar, tirando vantagem das suas proprietades ansiolíticas. Esse é o famoso beber após o trabalho – depois de oito horas de labuta, há algo profundamente reconfortante em uma dose de álcool, que aquieta o cérebro regulando nossos neurotransmissores (mas não se empolgue: enquanto o consumo moderado de álcool pode reduzir sintomas do stress, quando o nível de álcool no sangue passa de 0,1% – a maior parte dos estados norte-americanos considera 0,08% o limite legal para dirigir – é liberada uma grande quantidade de hormônios do stress, ou seja, mesmo que você sinta que está relaxado enquanto bêbado, seu corpo é convencido de que está em um estado de perigo mortal). E desse modo as aflições do dia parecem desaparecer – nós recebemos uma folga temporária das reclamações recorrentes de nossa própria consciência. Uma vez que o stress crônico é muito, muito ruim para nós, encontrar uma substância que consiga interromper efetivamente o ciclo do stress pode ter benefícios médicos.

Mas beber não é apenas desestressar. Na verdade, as tradições culturais que cercam o álcool tendem a enfatizar uma segunda função, talvez ainda mais importante: a socialização. Desde que as pessoas começaram a fermentar coisas, elas vêm transformando os excessos de produção em desculpas para grandes festas. Dos festivais de colheita na Babilônia às festas em honra ao deus Baco na Grécia Antiga, o álcool sempre esteve entranhado em nossas reuniões. Isso acontece por razões óbvias: o álcool é um delicioso lubrificante social, uma droga líquida que é particularmente boa para apagar nossas ansiedades interpessoais. E isso pode ajudar a explicar porque, de acordo com o novo estudo, quem bebe moderadamente tem mais amigos e apoio desses amigos com melhor qualidade do que abstêmios. Eles também se casam mais facilmente.

O que isso tem a ver com a longevidade? Nos últimos anos, sociólogos e epidemiologistas começaram a estudar os efeitos a longo prazo da solidão. Que, na verdade, são realmente perigosos. Nós somos primatas sociais, e quando somos separados da rede social, temos mais probabilidade de morrer de praticamente tudo (mas especialmente doenças cardíacas). Neste ponto, o elo entre a abstinência e o isolamento social é meramente hipotético. Mas, dada a longa história das bebedeiras em grupo – é o que fazemos quando nos juntamos – parece provável que beber com moderação facilita para que possamos desenvolver e cultivar relacionamentos. E são esses relacionamentos que nos ajudam a nos manter vivos.

É claro, os relacionamentos têm sua própria química, um idioma de dopamina, ocitocina, vasopressina, etc. Mas eu acho que, na pressa de decifrar as moléculas do nosso corpo, estamos ignorando a lição mais essencial, que é que alguns dos benefícios mais valiosos à saúde não vêm de compostos que podem ser engarrafados ou condensados em uma cápsula de gel. Em vez disso, eles vêm de outras pessoas, daquelas conversar deliciosas que temos enquanto tomamos uma taça ou três de vinho.

Aviso do Cirurgião Geral: É claro que essas correlações longitudinais não diminuem as consequências negativas e frequentemente devastadoras do álcool e do alcoolismo. Não podemos nos esquecer que o álcool pode ser uma substância viciante e que isso, em muitos contextos, beber provoca violência e vandalismo, e não socialização de maneira educada. Também é essencial ressaltar que todos os efeitos benéficos do álcool citados acima (como desestressar e socializar) também podem ser atingidos de graça, por meditação ou simplesmente sendo um bom amigo.