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Eleições: cuidado, perigo de explosão!

Posted in O futuro do país do futuro on 15/10/2010 by biones

Essas eleições ainda vão me matar. E a muitos outros inocentes também. E a culpa vai ser minha. Antes de mandarem a polícia aqui, me explico. Tenho acompanhado muito de perto todo esse processo, lendo muito do que sai a respeito na imprensa, nos chamados ‘blogs sujos’ (sites que remam contra a maré da grande imprensa, como os de caras com quem tenho a sorte de conviver ou ter convivido quase que diariamente no ambiente de trabalho, como Paulo Henrique Amorim, Rodrigo Vianna e Luís Carlos Azenha) e tudo o que eu leio tá enchendo a minha cabeça a ponto de explodir. E esse é o grande perigo. Uma jaca como a minha, se explodir, pode levar o quarteirão inteiro junto.

Pra começar, adianto que tenho posições muito definidas. Sou anti-tucano até morrer. Acho que o PSDB foi um grande male para o Brasil e que o fato de que o partido vai cumprir 20 anos de governo estadual em São Paulo é uma prova que esse estado perdeu muito da sua grandeza, graças, em boa parte, a esses próprios governantes. Sou lulista, acho que o Lula fez um governo histórico e conseguiu, em oito anos, mudar o país. Se isso torna a minha opinião menos digna de ser lida, pode fechar seu navegador agora. Se tiver opiniões contrárias, manifeste-se nos comentários abaixo e debatemos numa boa.

Tem alguns pontos em discussão nessa corrida eleitoral que me deixam besta. O primeiro deles é o lero lero a respeito de liberdade de expressão, de imprensa. Muito tentou se pintar o Lula como um cara autoritário (em uma entrevista do FHC para um grande jornal de SP, o adjetivo usado pelo repórter pra definir o comportamento dele foi ‘caudilhesco’), que não respeita opiniões contrárias, etc e tal. Desafio os leitores a encontrarem um exemplo de jornalista que tenha sido demitido a pedido dele.

Nesses oito anos, ele foi chamado de ‘bêbado’, ‘vagabundo’, entre outras preciosidades e eu gostaria muito de saber se alguém conhece um jornalista que tenha sido demitido depois de um telefonema do Palácio do Planalto. Já o candidato que diz ser ‘do bem’… Há alguns meses, dois grandes jornalistas da TV Cultura foram afastados de seus cargos após tentarem emplacar uma matéria sobre preços de pedágios no principal telejornal da emissora. Isso sem contar diversos outros casos, que podemos abordar depois mas, vejam bem, os pedágios são assunto de interesse público.

Está mais caro viajar de São Paulo a Bauru (percurso de 345km, R$ 45 na ida e R$ 45 na volta) do que de Belo Horizonte ao Rio (percurso de 434km, mais ou menos R$ 20 por trecho), graças às frequentes concessões das estradas paulistas. Uma fábrica de dinheiro, digna de um ‘pedagiômetro’ como os gastos com a carga tributária no país são de um ‘impostômetro. Acabei de olhar o site pedagiometro.com.br e lá está: quase R$ 4,2 bilhões só este ano foram coletados no estado que mais tem praça de pedágios no país. Isso não vale uma matéria?

Outros exemplos do apreço à liberdade de expressão. O Estadão declarou apoio ao Serra em um editorial de domingo. Até aí, ótimo, fica claro ao eleitor como ele deve ler o jornal, sabendo que ali se apoia o candidato. Usando da liberdade de imprensa que existe e é respeitada plenamente no país, colocou sua opinião da maneira mais clara possível. E duas semanas depois, demitiu uma colunista inteligente e conceituada, a psicanalista Maria Rita Kehl, porque ela escreveu um texto sobre os votos da população mais pobre, artigo brilhante, por sinal.

A Folha, em editorial na primeira página, no mesmo domingo, chamou Lula de autoritário e falou que ficará de olho em Dilma, caso ela seja eleita (não esclareceram se ficarão de olho em Serra caso ele ganhe, mas isso não vem ao caso… Ou vem?). Declarou-se apartidária, crítica e mais uma vez, defendeu a liberdade de expressão. Na semana seguinte, um blog que fazia sátira à Folha foi tirado do ar por meio de uma medida judicial, em que o jornal alega ‘uso ilegal da marca’. Fico imaginando o escândalo que fariam caso o PT entrasse na Justiça contra a Veja pelo uso da estrela, símbolo do partido, em dezenas de capas.

Hoje, veio mais uma pérola da Justiça. O Ministério Público Eleitoral, por meio da vice-procuradora-geral eleitoral, dra. Sandra Cureau, deu parecer favorável a uma representação da campanha do Serra contra o Jornal da Record, no qual eu trabalho, por ‘campanha’ a favor de Dilma Rousseff. Segundo dra. Cureau, houve ‘engenhosa manipulação’ em uma matéria que falava sobre os votos recebidos por Dilma e Serra no primeiro turno.

Qual seria a manipulação? A matéria mostrava como, dentro de São Paulo, cada candidato liderou em uma região: Serra, em Pinheiros, Jardins e similares, Dilma em Engenheiro Marsilac e outros bairros mais carentes da Zona Sul. Os números usados são do TSE, e correspondem ao mapeamento feito dos votos. Eu pergunto: o que há de manipulação em contar um fato?

Da cobertura da emissora líder de audiência, dra. Cureau não fala nada. Se vocês entrarem neste post aqui do blog do Azenha, vão ver que, no primeiro dia de campanha para o 2º turno, o Jornal Nacional e o Jornal da Record cobriram o mesmo evento: a visita de José Serra à Avenida Jacu-Pêssego, uma das obras mais mostradas no programa eleitoral do candidato. A Record mostrou que a visita da comitiva tucana acabou cedo por causa de protestos de moradores da região. Na concorrência, o texto que o repórter usa é “o candidato foi ABRAÇADO por eleitores”. Onde está a manipulação, dona Cureau? Em quem mostra o fato ou em quem o esconde?

Ainda tenho muito mais o que falar sobre essas e outras baixarias que são jogadas no ventilador, com o propósito único de retirar da eleição o seu verdadeiro propósito, que é o de comparar propostas na hora de decidir o futuro do país. Mas o que me incomoda, de verdade, é ver gente inteligente, instruída, que deveria saber filtrar as coisas que lê, repetindo besteiras lidas em correntes toscas de e-mails e usando esse ‘material’ para decidir seu voto.

Pra quem quer se informar um pouco melhor sobre tudo isso, sugiro os links abaixo.

A direitona mostra organização para chegar ao poder: “Nossa marca é crise” moral (post do blog do Azenha, leitura imperdível)

Desde 2004, PSDB paulista gastou 250 milhões com a mídia (entrevista feita pelo blog do Azenha sobre contratos entre o governo interminável do PSDB em SP e a mídia)

Dois pesos… (artigo da psicanalista Maria Rita Kehl que resultou em sua demissão do Estadão, recomendo, o texto é brilhante)

No próximo post, coloco aqui mais links desses, mas sempre vale frequentar o Conversa Afiada, site do Paulo Henrique Amorim e o Escrevinhador, do Rodrigo Vianna.

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Lição para jornalistas e quem os lê

Posted in O futuro do país do futuro on 24/09/2010 by biones

Quem vem à minha casa pela primeira vez sempre toma um susto quando vê a minha estante de livros. Tenho mais de 400 exemplares aqui, de todos os tipos e tamanhos. Minha tara é por ficção, por histórias bem escritas e bem amarradas. Só do Stephen King, são uns 25 livros, a grande maioria no original. Um dos maiores escritores que os EUA já produziram, na minha modesta opinião. O último dele que eu li foi Under The Dome, uma baita história, que me prendeu durante bons meses.

Depois dele, o primeiro livro que eu abri foi ‘The Girl With The Dragon Tattoo’ (que aqui no Brasil, ganhou o título de ‘Os Homens que não amavam as Mulheres’), primeira parte da trilogia Millenium, escrita pelo sueco Stieg Larsson. Não parei mais, e já cheguei ao terceiro livro, “The Girl Who Kicked The Hornet’s Nest’ (no Brasil, ‘A Rainha do Castelo de Ar’). Larsson morreu de infarto em 2004, sem ver seus livros publicados, e no ano passado foi o segundo autor em número de vendas no mundo inteiro.

Esta semana, enquanto lia, tropecei num diálogo que deveria ser reproduzido em todo e qualquer livro sobre jornalismo. Nessa época de eleições presidenciais, em que a mídia brasileira é pedra e vidraça e participa ativamtente do processo (influenciando, talvez menos do que seus donos gostariam, no resultado), as frases da jornalista Erika Berger para um de seus repórteres merecem destaque. Para não entregar a história para quem não leu o livro, digo apenas que ela descobre que o repórter vai publicar uma matéria com informações incorretas, e dá uma verdadeira lição. Segue o trecho

Original (pelo menos na versão em inglês que estou lendo)

Reporter: “I understand.”

Berger: “Do you? Good. Then I can sum up everything I said in one sentence. Your job description is to question and scrutinize critically – never to repeat claims uncritically, no matter how high placed the sources in the bureaucracy. Don’t ever forget that. You’re a damn good writer, but that talent is completely worthless if you forget your job description.” (…) “Think like a reporter. Investigate who’s spreading the story, why it’s being spread, and ask yourself whose interest it might serve.”

Tradução

Repórter: “Eu entendo.”

Berger: “Entende? Ótimo. Então eu posso resumir tudo o que eu disse em apenas uma frase. Seu trabalho é questionar e examinar criticamente – nunca repetir alegações sem usar a crítica, não importa o cargo que as fontes ocupem na burocracia. Nunca se esqueça disso. Você é um ótimo escritor, mas esse talento não vale nada se você esquece qual é o seu trabalho.” (…) “Pense como um repórter. Investigue quem está espalhando a história, por que ela está sendo espalhada, e pergunte-se aos interesses de quem ela pode servir.”

Em época de personagens obscuros sustentando escândalos mal-explicados e que, sem investigação adequada, podem influenciar nos destinos de um país inteiro, essas palavras deveriam ser sempre lembradas.